1. O papel da UFG no Estado de GoiásA expansão da universidade, ora proposta pelo programa do MEC conhecido por REUNI, não pode ser discutida sem uma clara consciência do papel da UFG no Estado. A UFG tem um corpo docente com qualificação superior a de todas as outras instituições de ensino do estado, com uma taxa de publicação maior e com programas de graduação e de pós-graduação em quantidade e qualidade crescente em várias áreas do conhecimento. Com toda esta vantagem, a UFG tem que se constituir em um centro de excelência e servir de referência a todas as outras instituições, formando pessoal do mais alto nível para atender às necessidades não só da iniciativa privada, mas também do serviço público.
2. O foco na qualidade
Os programas de expansão em quantidade não podem perder o foco da qualidade. Ao lado da expansão quantitativa ainda há espaço para a melhoria da qualidade nos diversos cursos. Devemos formar engenheiros, químicos, profissionais da informática, bacharéis e licenciados em Física e em Matemática, para falar apenas de alguns cursos da área de exatas, que se igualem aos formados nas melhores escolas do país.
3. Formação sólida
A formação sólida pressupõe o conhecimento profundo. Conhecer profundamente um assunto é saber fazer conexões entre diferentes conceitos, desenvolver intuição ou sensibilidade a ponto de fazer conjecturas e saber usar a linguagem (ou outro instrumento) adotada pela área para provar as conjecturas verdadeiras ou derrubar as falsas. Uma formação assim demanda tempo e concentração.
4. Formação ampla
Na formação ampla não se espera conhecimento profundo em nenhuma área específica. A desejada conjugação da formação ampla e sólida demandaria tempo, esforço e aptidão dificilmente disponíveis na maioria dos indivíduos. Um curso que privilegie a formação ampla e que tenha duração relativamente curta, dificilmente propiciará conhecimento profundo em alguma área. Os conhecimentos ficariam restritos à superfície de cada área.
5. Formação sólida versus formação ampla
Na impossibilidade de uma formação sólida e ampla ao mesmo tempo, a UFG deve preferir uma formação sólida dos alunos numa área, procurando oferecer meios para que o aluno interessado possa ampliar a sua formação de acordo com o seu interesse e a sua disponibilidade, a exemplo do que acontece hoje com as disciplinas do núcleo livre, ou através de outros eventos que não sejam necessariamente disciplinas. Uma pessoa com formação sólida tem uma idéia de como se dá a construção do conhecimento numa área, dando-lhe uma perspectiva que lhe permite atribuir o devido valor aos conhecimentos das outras áreas. A capacidade criativa de uma pessoa com esta formação poderá ser mais útil numa atividade que não seja do seu domínio do que a de uma pessoa com conhecimentos superficiais. A pessoa com formação profunda tem mais facilidade para aprender coisas novas, mesmo de outras áreas, em comparação com uma pessoa com amplo, mas superficial conhecimento.
6. O bom uso dos recursos de que dispõe a UFG
Dispondo a UFG de recursos humanos e instrumentais, numa dimensão que as outras instituições não possuem, seria um sub-aproveitamento, utilizar parte significativa desses recursos no ensino de superficialidades, no montante que se anuncia com a criação dos Bacharelados em Grandes Áreas (BGA).
7. Riscos da criação de uma estrutura ociosa
A aprovação pela comunidade externa de cursos como o BGA é duvidosa, em virtude da falta de tradição de curso superior com esta característica. A possibilidade de fracasso desses cursos é real, a julgar por experiências feitas pela instituição universitária no passado. Se isto acontecer, teremos criado mais um “elefante branco”, termo que se usa para expressar o mau uso dos recursos públicos. A expansão do corpo docente para atender à demanda do BGA prevê um incremento desproporcional – indo de 27 docentes numa unidade a três em outras unidades. Há um risco de se criar uma ociosidade naquelas áreas em que a demanda de serviços não se concretizar, contribuindo para fazer piorar os indicadores previstos pelas metas do REUNI.
8. Onde aplicar os recursos anunciados
A minha opinião é a de que os recursos que serão disponibilizados pelo REUNI devem ser aplicados na expansão quantitativa e na melhoria da qualidade dos cursos de formação profunda em todas as áreas de conhecimento, desde as artes até as tecnológicas, bem como em projetos que incremente a permanência dos alunos na universidade. Uma graduação forte prepara o caminho para uma pós-graduação forte e sustentável, repercutindo na pesquisa e na extensão. Com isto estaremos abrindo a possibilidade de se criar uma atmosfera rica e estimulante no campus universitária, só encontrada em instituições de ponta, que poderá promover no seu corpo de pessoal docente, discente e administrativo o interesse em ampliar a sua formação cultural e de participar das discussões dos temas de interesse contemporâneo.
*Genésio Lima dos Reis é professor do Instituto de Matemática e Estatística-UFG