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Inovação, goianidades e outras tradições

Publicado em : 09/04/2019

Autor : Jornal do Professor

A inovação é uma oportunidade que não bate à porta, ela é força que emerge do assoalho, tomando de sobressalto os incautos, aqueles que pensam que o mundo permanecerá incólume, alheio às mudanças que, desenfreadas, atropelam os que preferem acionar as travas, que como pedras no rio, tentam deter a água. Exercício vão, ainda que exitoso por pouco tempo. E o tempo, aqui, é o tempo da cultura, cujas águas parecem calmas na superfície, escamoteando a corrente forte que opera abaixo dela. Quem mergulha nessas águas pode identificar a força tida nesse rio, que embora na superfície reflita o céu, em seu percurso move terras, criando veios e sustentando vidas, em um exercício veloz de mover seu leito, sobre o qual jamais dorme.

A força da inovação, contudo, não se opõe à tradição, como o pensamento comum supõe: o vocábulo tradição vem do latim traditio, derivado de tradere, que significa entregar, passar adiante. O verbo é formado por trans-, adiante, além, e dare, dar, entregar. Tradição, originalmente, significa passar algo a alguém, normalmente vinculado a costumes, hábitos e outras especificidades socioculturais. Não se opõe, portanto, a ideia de inovação, nem estabelece relação de sinonímia com fixação. Inovação, ela mesma, pode ser uma tradição, como estamos aprendendo com Japão, Alemanha e mesmo com os Estados Unidos, embora este último resvale em um conservadorismo que, este sim, conserva, sem muito êxito, valores e costumes já mofados.

No Brasil, a onda de conservadorismo pode ser um freio no desenvolvimento social, incluindo tudo o que a inovação requer, principalmente no que diz respeito à ciência e à tecnologia, elementos que definem o Zeitgeist contemporâneo. A perspectiva de uma moralidade quase vitoriana embute um viés perigoso para a cultura, justamente por confundir moralidade com conservadorismo, podendo frear oportunidades de discutir e implementar uma tradição moral ajustada a um tempo, ao nosso tempo.

Em Goiás, a inovação encontra cenário similar ao brasileiro, com a dificuldade de estarmos um pouco mais distantes da área mais desenvolvida do país, nos quesitos apontados. Enquanto polos tecnológicos em São Paulo, Pernambuco e Santa Catarina despontam, catapultando a economia e a geração de empregos em passos firmes para a melhoria da qualidade de vida de seus habitantes, nosso slogan do governo passado, Goiás um estado inovador, não foi muito além de slogan. A atenção voltada para a inovação ainda carece de seriedade e compromisso, haja vista alguns retrocessos empreendidos, com dissolução de ações que contribuem, efetivamente, para o exercício da cidadania e a melhoria da base científica e tecnológica no estado.

Ações empreendedoras e inovadoras, como a implementação de inteligência no estado, principalmente na educação, saúde e segurança, ainda patinam, enquanto a burocracia impera, com sua moralidade retrógrada e ineficiente, casulo de mandatários feudais em seus nichos destituídos de cor, luz e perspectivas. Ainda que alguns projetos de cidade inteligente lancem luz no cenário goiano, será preciso mais que isso para alavancar o estado, tornando-o competitivo. Soluções tecnológicas para problemas sociais são apenas um dos aspectos em que naufragamos. A inexistência de políticas para polos tecnológicos e científico-tecnológicos evidencia o quadro de incompletude que temos. O parque científico-tecnológico da UFG, por exemplo, projetado para ser maior e em articulação com o Estado, vingou solitário, recebendo apoios pontuais e assistemáticos, sem a consistência planejada.

O protagonismo da cena é disputado entre a UFG, considerada a 20a. melhor universidade do país, segundo o Ranking Universitário Folha 2018, divulgado recentemente, o Instituto ACE GynTec, que movimenta o contexto inovativo do estado, e o município de Aparecida de Goiânia, que este ano se tornará um dos municípios brasileiros de maior rede digital por fibra óptica do país, criando base para revolucionar a cidadania no município. Outras ações pontuais, como as ações do Coletivo Centopeia e de alguns outros espaços de coworking buscam iluminar o céu do estado, ainda que não façam, juntos, uma constelação nominada na astronomia da inovação brasileira.

A UFG, ainda que tenha o peso de uma Universidade Federal e padeça com os cortes orçamentários federais, apresenta a leveza de suas ações pouco burocratizadas e o vigor das pessoas que a conduzem, enfrentando heroicamente as dificuldades que se erguem. A manutenção do projeto do Parque Científico-tecnológico, a criação da UFG Aparecida tematizada na Ciência e na Tecnologia e o apoio a laboratórios destinados à inovação, como o RTI, o FarmaTec, o LabTime e o Media Lab, dá mostras de qual o papel que a instituição quer representar na cena goiana. Seus esforços incluem a oferta de cursos inovadores, como a especialização em Inovação em Mídias Interativas e a especialização em Educação Inclusiva e Tecnologias Assistivas, ambas ofertadas do Media Lab, e se lastreiam por cursos Stricto Sensu, como o PPG em Ecologia e Evolução, que tem conceito 7, concedido pela CAPES e identificador de cursos de referência internacional.

A presença e atuação da UFG faz mexer o fiel da balança, sendo determinante não apenas para a formação profissional, mas essencialmente pela modelização de perfis inovadores, baseados na pesquisa e na formação de novos pesquisadores. Ainda que faltem articuladores institucionais que se nivelem com a robustez da UFG em terras goianas, há de se admitir que ela contribui significativamente para que haja tais articuladores, ainda que a contribuição seja na liberação de seus doutos quadros humanos para o Estado e para os Municípios, como tem ocorrido.

A atuação da UFG, portanto, não se limita a uma amplitude intramuros, antes se lastreia na cena estadual e, como água, penetra o solo do cerrado, tornando-o fértil de mentes inovadoras, capazes de tornar a inovação em mais que uma palavra da moda, em uma verdadeira e nova tradição.

 

*Cleomar Rocha é coordenador do MediaLab UFG, pesquisador PQ CNPq e professor nos PPGs Arte e Cultura Visual (FAV/UFG), Performances Culturais (FCS/UFG) e Arte (IdA/UnB)

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