Notícias

Autor: Ascom Adufg-Sindicato

Publicado em 30/03/2026 - Na mídia, UOL

Em ano eleitoral, deputados aceleram gastos com autopromoção

Em ano eleitoral, deputados aceleram gastos com autopromoção

O primeiro bimestre de 2026 já apresenta o maior gasto nominal com divulgação da atividade parlamentar de deputados federais desde 2008, quando essa informação começou a ser registrada.

Dados parciais indicam R$ 15,7 milhões pagos, contra R$ 14,9 milhões no mesmo período de 2025.

Considerando os dados corrigidos pela inflação, o maior valor foi o de 2024, com R$ 16,2 milhões.

O valor de 2026, no entanto, deve aumentar e caminha para bater o recorde, já que os parlamentares têm até 90 dias para comunicar as despesas à Câmara dos Deputados.

A cada quatro anos, parlamentares que buscam a reeleição concentram esses gastos no primeiro semestre, em uma estratégia de visibilidade pré-eleitoral.

De acordo com as normas da cota para parlamentar, os deputados são proibidos de utilizar a verba para divulgação do mandato nos 120 dias anteriores ao primeiro turno —ou seja, têm até o início de junho para gastar promovendo suas ações.

Pela regra, nenhum dos gastos da cota pode ser feito com "caráter eleitoral".

Na prática, no entanto, os gastos são feitos principalmente para enaltecer os feitos dos deputados em suas redes sociais, o que acaba por configurar uma vantagem adicional para os parlamentares em relação aos concorrentes.

Tendência de mais gastos

Mesmo fora de períodos eleitorais, a propaganda tem ocupado uma fatia crescente do orçamento da cota parlamentar.

Em 2025, o valor atingiu R$ 101 milhões, representando 42% do total da cota utilizada no ano passado —o maior percentual já registrado.

O único ano atípico recente foi 2022, quando a alta nos preços das passagens aéreas pós-pandemia deslocou temporariamente a "divulgação de atividade" do topo do ranking de despesas. Contudo, a autopromoção retomou a liderança logo em seguida.

O histórico das despesas revela uma mudança de padrões na Câmara: em 2008, os maiores gastos eram de telefonia (29%) e consultorias e trabalhos técnicos (18,6%).

Hoje, a telefonia é gasto residual, e as consultorias são majoritariamente realizadas pelo corpo técnico da Casa ou por secretários parlamentares, cujos salários são custeados pela verba de gabinete, e não pela cota.

Em que o dinheiro é gasto

Desde o início da legislatura, em fevereiro de 2023, os deputados já gastaram R$ 310 milhões na divulgação do mandato.

Individualmente, a Meta, empresa dona do Facebook e Instagram, foi a companhia que mais recebeu recursos (R$ 7,7 milhões), mas os valores estão pulverizados em mais de 6 mil empresas.

Os cinco deputados com maiores despesas em 2025 foram os seguintes:

Em resposta à reportagem, os parlamentares disseram que os recursos são aplicados de forma regular, de forma a dar transparência e informar a população da ação dos deputados. A única que não respondeu à reportagem foi a deputada Antônia Lúcia (Republicanos-AC). Leia aqui a íntegra das manifestações.

UOL analisou um conjunto de 372 notas fiscais apresentadas por esses cinco deputados em 2025.

A transparência sobre os serviços prestados é limitada. A maioria das notas não tem descrição pormenorizada. É possível verificar a partir das notas, no entanto, pagamentos relacionados aos seguintes serviços:

  • redes sociais: 41% do valor foi para notas fiscais que citam as mídias sociais;
  • conteúdo para rádio: 30% do valor;
  • conteúdo para blogs ou jornais digitais: 23%;
  • vídeo: 20%;
  • assessoria de imprensa: 19%;
  • peças gráficas e impressos (folders, panfletos, etc): 19%.

A soma supera 100% porque uma única nota fiscal pode listar múltiplos serviços sem o devido detalhamento de custos individuais. Alguns registros mais detalhados especificam com mais clareza o material pago com os recursos da cota parlamentar.

Um exemplo é uma publicação de maio de 2025 no Instagram, em que o deputado Albuquerque (Republicanos-RR) anuncia R$ 8 milhões de emendas para o município de Mucajaí (RR).

A divulgação, diz o deputado, é prestação de contas para o eleitor do estado.

Em outro post financiado pela cota parlamentar, o deputado Robinson Faria (PP-RN) comemora recursos de emenda destinados a uma associação voltada ao atendimento de pessoas com autismo. Faria diz que a divulgação da destinação de emendas é uma ferramenta de transparência essencial. 

Também é comum o pagamento de notas fiscais para rádios regionais e programas políticos. O deputado Moses Rodrigues (União-CE), por exemplo, destina cerca de R$ 19 mil mensais para a divulgação de seu mandato em programas locais, o que diz fazer para dar publicidade às atividades.

Vantagem

A divulgação enaltecendo os deputados deve aumentar até o início da campanha. Em 2022, parlamentares chegaram a gastar até R$ 200 mil com divulgação no período pré-eleitoral (valor superior à totalidade dos gastos de campanha de 80% dos candidatos à Câmara naquele ano).

A linha entre informar o eleitor sobre o mandato e fazer campanha antecipada com dinheiro público é, na prática, tênue. Enquanto candidatos sem mandato precisam aguardar o período eleitoral oficial para se promover —e, na maioria das vezes, tem recursos mais restritos—, os deputados em exercício contam com verba, renovada mensalmente, para manter sua imagem em evidência durante todo o ano.