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Autor: Luciana Porto

Publicado em 16/07/2020 - Jornal do Professor

“Ser indicada pela OMS só foi possível com trabalho em equipe”, revela Cristiana Toscano

Docente e médica epidemiologista da UFG é a única representante brasileira que participa de grupo de trabalho e pesquisas para vacina contra o novo coronavirus

A professora do Instituto de Patologia Tropical e Saúde Pública da Universidade Federal de Goiás (IPTSP-UFG), Cristiana Toscano, foi indicada para compor o Gru-po Estratégico Internacional de Experts em Vacinas e Vacinação (SAGE – Strategic Advisory Group of Experts for vaccines and vacci-nation) da Organização Mundial da Saúde (OMS). A médica epide-miologista é a única brasileira e representante da América Latina que integra a equipe formada por especialistas do mundo todo. Por telefone, o Jornal do Professor entrevistou a docente sobre essa indicação e o trabalho que será realizado pelo grupo no desenvol-vimento da vacina contra o novo coronavirus.

JP: Como aconteceu a sua indicação para a OMS?

Cristiana: Na verdade, eu já trabalho nessa área, principalmente na área de imunizações em Saúde Pública, e na área de pesquisa para avaliação de impactos de vacinas, avaliação e modelos de programas de vacinação, estudos econômicos relacionados à imunização há 20 anos. Inicialmente, eu trabalhava em uma carreira internacional de Saúde Pública relacionada a imunizações, trabalhei na Organização Panamericana da Saúde (OPAS), para a Orga-nização Mundial da Saúde (OMS) em diversos países, sediada em Brasília, em Washington e depois em Genebra. Isso antes de voltar para o Brasil e de prestar concur-so e assumir como professora aqui na UFG. Em 2009, eu voltei para o Brasil. O meu marido é goiano, e a gente optou por vir para Goiás e, na sequência, por coincidência mesmo, por sorte, abriu concur-so no Departamento de Saúde Coletiva no IPTSP e em 2010 eu assumi como professora do Insti-tuto. Desde então, eu venho mantendo essas atividades como linha de pesquisa e a gente tem muitos trabalhos em colaboração internacional, com bastante projetos de pesquisa, bastante operacionais, sobretudo para gerar evidência para orientar políticas e estratégias de vacinação. Temos uma boa relação com o Ministério da Saúde e com o Programa Nacional de Imunização, a gente já teve vários projetos financiados e demanda-dos por eles. Eu participo desde 2017 do comitê da Organização Panamericana da Saúde (OPAS), de experts em imunização na re-gião das Américas. Desde 2016, eu participo do Grupo de Trabalho para vacina contra o Pneumococo, que é um grupo de trabalho específico do comitê FAGE da OMS. E mais recente, desde o ano passa-do, sou a representante do estado de Goiás junto à Sociedade Brasileira de Imunizações.

JP: Qual é a sua expectativa para uma vacina contra o novo coronavirus?

Cristiana: : Na verdade, estamos vivendo um momento sem precedente na história do desenvolvimento de novas tecnologias, em particular de novas vacinas no mundo. Porque esse novo coronavírus é um vírus novo para os seres humanos e que foi identificado há menos de seis meses e é importante lembrar que geralmente uma vacina leva anos para ser desenvolvida, no passado até mesmo décadas. É um processo complexo, é um processo que envolve muita pesquisa, muita tecnologia, ensaios clínicos. E recentemente, com esse advento da pandemia nós vivemos, eu acho que um avanço sem precedentes, no sentido de termos tido um desenvolvimento muito rápido e uma ação muito rá-pida e consertada e articulada entre grupos de pesquisa internacionais. Avançamos muito, estamos avançando muito rapidamente, mas neste momento ainda é difícil responder quando teremos uma vacina. Nessa miríade de centenas de vacinas candidatas, têm vacinas basicamente de quatro tipos diferentes, que são tecnologias de desenvolvimento de vacinas diferentes. Existem as vacinas virais, compostas por vírus atenuados ou inativados, elas usam a tecnologia convencional que várias vacinas no mundo já estão utilizando, por exemplo a vacina da influenza. Existem vacinas que usam o RNA ou o DNA. Existem vacinas de vetores virais. E existem vacinas chamadas proteicas, com subunidades proteicas ou partículas semelhantes ao vírus, que a gente chama de uma partícula de vírus like. Mas, para a vacina ser de fato disponibilizada ela implica em diversas etapas. Ela implica primeiro no desenvolvimento da vacina, depois de testá-la em laboratórios e em animais ela se mostrar eficiente do ponto de vista de desenvolver anticorpos, de ser segura, ela passa para a fase de estudo em humanos, que chama a fase clínica, e aí tem etapas sucessivas dos estudos em humanos, fase um, fase dois, fase três, que em última instância, com o número crescente de participantes, visa garantir que as determinadas vacinas sen-do avaliadas sejam seguras, acima de tudo, e eficaz e que funciona para proteger contra a doença.

JP: Qual o seu sentimento em ser a única brasileira indica-da para atuar nesse ramo com a OMS?

Cristiana: : é um sentimen-to de grande realização, satisfação e honra. Me sinto muito honrada em poder representar a nossa ins-tituição, o nosso Estado, o nosso País e a América Latina. Eu gostaria de destacar que tudo isso só é possível graças à colaboração, porque nenhum pesquisador faz nada sozinho e que se eu estou hoje representan-do a nossa instituição nesse grupo de trabalho é porque eu sempre tive apoio. A gente precisa trabalhar não individualmente, mas em colaboração, em todas as fases: pesquisa, planejamento, implementação de medidas de saúde pública. A gente tem que pensar muito no outro sempre, como um grupo, não só olhando para nós mesmos.