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Autor: Ascom Adufg-Sindicato
Publicado em 06/02/2026 - Folha de São Paulo, Na mídia
Cursos multidisciplinares puxam recorde de ingressantes na pós-graduação
Programas stricto sensu de mestrado e doutorado ganham 120,6 mil alunos em 2024. Engenharias, ciências agrárias, ciências exatas e da Terra têm queda nas inscrições
O número de ingressantes em programas de pós-graduação stricto sensu no Brasil chegou a 120,6 mil em 2024, o maior da última década. O total representa um crescimento de 12,45% em relação a 2023 e marca a retomada do sistema após uma trajetória de avanços e recuos.
A série histórica dos últimos dez anos ajuda a explicar esse resultado. De 2015 a 2 019, o número de ingressantes cresceu de forma gradual, passando de pouco mais de 103 mil para cerca de 118 mil. Em 2020, houve queda superior a 10%, seguida por nova retração em 2022. Em 2023, o ingresso voltou a crescer, de forma tímida, antes de alcançar, em 2024, o maior número de ingressantes da última década.
Os dados foram levantados pela Folha na Plataforma Sucupira, da Capes (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior), que reúne informações oficiais sobre a pós-graduação stricto sensu no país. Foram considerados os ingressantes em cursos de mestrado e doutorado, acadêmicos e profissionais.
Para a presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), Francilene Procópio Garcia, o avanço no número de ingressantes é um sinal relevante de retomada. "A SBPC vê o aumento dos ingressantes na pós-graduação como um sinal importante de retomada da formação científica no país, após um período de instabilidade. Esse movimento indica que ainda existe demanda, vocação e confiança na ciência como caminho de futuro", afirmou.
O crescimento é liderado pela grande área multidisciplinar, que registrou aumento de 82% no número de ingressantes entre 2015 e 2024, passando de 13,4 mil para 24,5 mil novos alunos. Trata-se da maior variação percentual entre as grandes áreas no período.
Segundo Eduardo Winter, coordenador de avaliação da área interdisciplinar da Capes, o desempenho da área está associado ao seu estágio de desenvolvimento no sistema. "As áreas que compõem a grande área multidisciplinar são algumas das mais jovens do Sistema Nacional de Pós-Graduação e têm maior possibilidade de crescimento quando comparadas a áreas mais antigas e consolidadas", disse.
Outras áreas também registraram crescimento no número de ingressantes ao longo da década. As ciências sociais aplicadas ampliaram em mais de 30% o número de novos alunos entre 2015 e 2024, enquanto as ciências humanas cresceram cerca de 22%. A área da saúde apresentou aumento próximo de 18% no mesmo período.
Em sentido oposto, áreas disciplinares perderam espaço no número de ingressantes. As engenharias registraram queda de quase 14% de 2015 a 2024. Também houve retração nas ciências agrárias e nas ciências exatas e da Terra, além de recuos mais moderados em linguística, letras e artes e em ciências biológicas.
O avanço no número de ingressantes não se traduz imediatamente em mais bolsas. Em 2024, a área multidisciplinar aparece como a terceira maior em número de bolsas da Capes, com 12,3 mil, atrás de ciências da saúde (15,2 mil) e ciências humanas (14,7 mil). "O aumento no número de ingressantes somente irá gerar resultados no aumento de bolsas após 2 a 4 anos, em média, para mestrados e doutorados", disse Winter.
A retomada do ingresso ocorreu em um sistema que também ampliou sua capacidade institucional ao longo da década. De 2015 a 2024, o número total de programas de pós-graduação stricto sensu passou de 3.946 para 4.635, um crescimento de 17,46%.
Para Garcia, o crescimento do ingresso amplia o debate sobre as condições de sustentabilidade da pós-graduação. "Formar mais mestres e doutores é uma necessidade estratégica, mas não é suficiente. O Brasil precisa transformar ingresso em trajetória, titulação e inserção qualificada. Caso contrário, corremos o risco de ampliar a evasão de cérebros", disse.
O recente patamar de ingressantes recoloca a pós-graduação stricto sensu em trajetória de expansão no país. A consolidação desse avanço dependerá de políticas capazes de acompanhar a expansão do sistema, reduzir os descompassos entre áreas e sustentar, no médio e no longo prazo, a formação, a permanência e a fixação de doutores no país.