Notícias

Autor: Ascom Adufg-Sindicato

Publicado em 22/05/2023 - Jornal do Professor, Notícias

Mulheres avançam na ciência, mas ainda sofrem com desafios da equidade de gênero

Mulheres avançam na ciência, mas ainda sofrem com desafios da equidade de gênero

Se pedirmos para uma criança desenhar um cientista, provavelmente ela irá imaginar um homem branco, mais velho, de óculos e jaleco. É justamente esse o pensamento que ainda se tem sobre a carreira científica, em pleno 2023. Isso porque seguir atuação na área requer dedicação, esforço e tempo, seja dos homens ou das mulheres, mas alguns desafios são inerentes apenas a elas. O reflexo disso está no recente relatório “Decifrar o código: educação de meninas e mulheres em ciências, tecnologia, engenharia e matemática”, da Unesco, o qual mostra que apenas 28% dos pesquisadores de todo o mundo são mulheres.

Nas universidades federais localizadas em Goiás, elas estão ligeiramente abaixo do percentual masculino. Na Universidade Federal de Goiás (UFG), o número de pesquisadoras à frente de projetos de pesquisa, entre servidores e docentes, representa 48,20%. Na Universidade Federal de Jataí (UFJ), chega a 42,89%. Já na Universidade Federal de Catalão (UFCAT), as mulheres são 42,35%.

Na UFG, contudo, as mulheres são maioria na coordenação de pesquisas nas áreas de Ciências da Saúde (60,4%), Ciências Biológicas (51,7%) e Ciências Humanas (55,0%), e Linguística, Letras e Artes (61,65%), seguindo um padrão observado em todo o país. Os homens ainda dominas as áreas de Ciências Exatas e da Terra, Engenharias e Ciências Agrárias.

“O avanço da presença feminina em atividades de pesquisa tem sido observado no Brasil na última década, reflexo da luta constante em direção à igualdade de gênero e enfrentamento à discriminação, levando a conquistas importantes. Mas é importante destacar que ainda existem diferenças significativas quando observamos em relação às grandes áreas do conhecimento”, diz a pró-reitora adjunta de Pesquisa e Inovação e diretora de Pesquisa da UFG, professora Fabíola Souza Fiaccadori.

A UFJ conta, atualmente, com 498 projetos de pesquisa em andamento. A realidade é similar, já que na Unidade de Educação e na Unidade de Ciências da Saúde o percentual de pesquisadoras coordenadoras de projetos de pesquisa é de 57,89 e 60,45%, respectivamente. Em relação ao Programa de Iniciação Científica são 53% de pesquisadoras orientando os planos de trabalho no ciclo vigente.

“As docentes pesquisadoras da UFJ estão cada vez mais presentes, de forma ativa, em todas as políticas de pesquisa e inovação tecnológica. Seja na coordenação de projetos, de grupos e redes de pesquisas, além de buscar recursos em editais das agências de fomento públicas e junto a empresas privadas, por meio de parcerias e atuando nos programas institucionais de iniciação científica e tecnológica”, reforça a professora Danielle Fabíola Pereira da Silva, pró-reitora adjunta pro tempore de Pesquisa e Inovação e diretora de Pesquisa da UFJ.

A UFCAT conta, atualmente, com 85 projetos em andamento. Destes, 36 são coordenados por mulheres e 49 por homens. Em 12 projetos, não há participantes do sexo feminino e 73 projetos em que, pelo menos, uma mulher é integrante. “Apesar do número de mulheres na pesquisa e na ciência na UFCAT ser menor em relação aos homens, sendo sobretudo um reflexo do que acontece socialmente, houve um avanço ao longo dos anos da participação das mulheres, mas que com certeza ainda está longe de ser equânime”, avalia a professora Grenissa Stafuzza, pró-reitora substituta de Pesquisa, Pós-Graduação e Inovação.

Desafios Por mais que a atual realidade dê indícios de mudanças, as mulheres precisam, ainda, lidar com inúmeros desafios para prosperar na carreira científica, com barreiras que resistem ao tempo. Para muitas, os desafios não são suficientes para fazê-las desistir, mas exigem que elas enfrentem obstáculos sequer existentes na vida de um homem. “Podemos pontuar diferentes aspectos que dificultam o estabelecimento de mulheres no meio científico, ou mesmo a ascensão da carreira. A desigualdade de gênero e o preconceito ainda permanecem como questões relevantes no contexto da ciência no Brasil.

Outro aspecto de destaque é a sobrecarga de trabalho, que reflete a dificuldade em conciliar o trabalho como cientistas com trabalho doméstico e a maternidade, por exemplo”, analisa professora Fabíola. Em relação à maternidade, a pesquisadora acrescenta que, no contexto da pesquisa científica, uma conquista importante foi a ação do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), que realizou a inclusão no Currículo Lattes do campo para licença-maternidade, a fim de permitir o registro dos períodos de licença- -maternidade.

Sobre a assimetria de gênero na pesquisa e na ciência, Grenissa destaca que é o resultado de uma questão mais profunda no Brasil, causada pelos mesmos fatores que explicam por que os salários das mulheres ainda são mais baixos em diversos setores ou por que o número de mulheres em posição de liderança de alto nível é menor. “Para mudar esse cenário, é preciso um esforço coletivo e temos a educação como ação transformadora da sociedade. Por isso, as iniciativas em andamento no Brasil que funcionam também como campanhas educativas para estimular as meninas a atuarem na ciência são muito bem-vindas”, acrescenta.

“De um passado que evidencia métricas que afirmam a necessidade de mudança na temática de gênero, esforços foram empreendidos por meio da Agenda 2030; que vislumbra o Desenvolvimento Sustentável ao tema para alavancar a igualdade de gênero e mais do que isso o empoderamento das mulheres e meninas de forma holística”, enfatiza a professora Danielle. Valorização Em comum, as professoras das universidades federais localizadas em Goiás compartilham que é preciso incentivar mais a participação feminina. “Ainda há muito espaço a ser conquistado para se alcançar uma condição mais equilibrada.

É necessário avançar em ações de enfrentamento ao preconceito, de apoio e orientação para construção de uma sociedade com equidade de gênero, bem como no incentivo à elaboração de políticas públicas que promovam o reconhecimento e valorização da contribuição feminina na produção da ciência”, opina Fabíola Souza Fiaccadori. “Para mudar o cenário, só o discurso não basta. É preciso oferecer oportunidades, propor metas e engajar cada vez mais as mulheres para que se sintam mais motivadas e valorizadas.

Na UFJ, alguns cargos de gestão já são ocupados por mulheres, como a Vice-Reitora da instituição, seguida de 37,5% das Pró-reitorias são ocupadas por mulheres”, diz a professora Danielle Fabíola. Na UFCAT, informa Grenissa, há diversos eventos, grupos de pesquisa, pesquisas realizadas e orientadas nos níveis de graduação e pós-graduação, além de produções bibliográficas que abordam o tema da mulher na ciência, na pesquisa, no trabalho e na sociedade. “A Universidade, de modo geral, sempre se colocou na sociedade como pioneira no combate às assimetrias de gêneros porque é lugar de pesquisa, de ciência, de difusão do conhecimento por excelência. Precisamos sumariamente extinguir o machismo porque ele nos faz retroceder como sociedade.

Para isso, é necessária uma mudança de mentalidade e de cultura, de alterar nosso olhar sobre a mulher, de enxergá- -la como sujeito. Isso só virá com esforços coletivos e educação de qualidade”. Reconhecimento Quando se fala em mulheres pesquisadoras na UFG, um dos nomes que se destaca é o da professora Eliana Martins Lima, da Faculdade de Farmácia. Com mais de 30 anos atuando na instituição, ela tem uma trajetória marcada por um importante legado na área da pesquisa e de inovação em ciências farmacêuticas.

Recentemente, a docente conquistou a terceira colocação no 2º Prêmio do Conselho Nacional das Fundações Estaduais de Amparo à Pesquisa (Confap) de Ciência, Tecnologia & Inovação – “Professora Odete Fátima Machado da Silveira”, na categoria Ciências da Vida (Ciências Biológicas, Ciências Agrárias, Ciências da Saúde). Ela foi indicada pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Goiás (Fapeg), na etapa estadual, que aconteceu em dezembro do ano passado. “Esta premiação, em particular pelo prestígio que acompanha a Confap e os membros da comissão avaliadora que classificou pesquisadores de todo o País, é o reconhecimento de uma vida de trabalho intenso, dedicação e relevantes contribuições dentro da grande área de Ciências da Vida. Nosso País e nossas instituições não possuem tradição em valorizar o trabalho, a dedicação e as significativas contribuições de cientistas em suas áreas de atuação.

Uma validação como esta é uma importante motivação para continuar o trabalho, um reforço de que os sacrifícios valem a pena, e a certeza de que mais vale o que ainda está por vir”, reflete. Com uma trajetória admirável, Eliana Martins Lima serve de exemplo para tantas outras mulheres que desejam ingressar nesta área da pesquisa e da ciência. “A ciência, a tecnologia, as inovações são melhor alcançadas se executadas por mãos diversas, por mentes que pensam diferente e se complementam, por pessoas com experiências variadas, e nós, mulheres, temos ingredientes únicos para colaborar e protagonizar os mais relevantes papéis nessas áreas”, conclui.