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Autor: Ascom Adufg-Sindicato

Publicado em 19/03/19 - Jornal do Professor

Mulheres ainda são minoria em cargos de direção na UFG

Mulheres ainda são minoria em cargos de direção na UFG

Embora as mulheres sejam a maioria dos docentes da Universidade Federal de Goiás (UFG) e regionais, sendo 51% do total dos 2.887 professores ativos, elas ocupam somente um terço dos cargos de gestão dos órgãos administrativos, unidades acadêmicas e acadêmicas especiais, na proporção de 19 mulheres para 38 homens diretores. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) também revelam que as mulheres são a maior parte dos discentes nas instituições de ensino superior. O levantamento realizado em 2016 aponta o total de 23,5% de mulheres brancas contra 20,7% dos homens brancos com ensino superior no país, diferença que fica ainda maior com recortes étnicos raciais, com 10,4% das mulheres negras e 7,0% dos homens negros.  

Essas questões de gênero ganham cada vez mais importância global, e estão presentes em quase todos os objetivos estipulados pela agenda da Organização das Nações Unidas para o desenvolvimento sustentável. Mais do que uma data comemorativa, o Dia Internacional da Mulher é uma oportunidade para reflexão sobre o papel que a mulher exerce na sociedade, as desigualdades e equalização dos direitos, e o combate à violência.

O Jornal do Professor conversou com algumas dessas mulheres que ocupam colocações de gestão dentro da universidade. Donas de personalidades únicas, elas falaram sobre o enfrentamento de cada uma das dificuldades em suas trajetórias, o pioneirismo por serem, na maioria das vezes, a primeira docente do sexo feminino a assumir um cargo de chefia dentro da sua unidade, e como se deu essa ascensão.

Representatividade
O ano era 2015 quando alunas do curso de Direito ligadas ao movimento feminista espalharam cartazes de protesto pelos corredores da faculdade. A frase “tire seus rosários dos meus ovários” foi considerada ofensiva ao símbolo religioso, e culminou numa denúncia à polícia por meio da direção da própria unidade. Quando tomou conhecimento da causa, a docente Bartira Macedo de Miranda impetrou um habeas corpus com o intuito de evitar que as quatro meninas envolvidas respondessem criminalmente pelo ato.

A estratégia deu certo, e a Justiça mandou suspender a investigação, cuja decisão do juiz Denival Francisco da Silva considerou a investigação desprovida de tipicidade criminal. À época, Bartira foi recebida com aplausos em um ato organizado pelas estudantes enquadradas, que fizeram discursos pela pluralidade de pensamentos na FD. Este episódio foi um dos fatores que contribuíram para a ascensão da docente à direção da unidade. “Eu já participava do debate interno da faculdade sobre o assunto, mas a visibilidade veio depois disso”, lembra Bartira.

A história da Faculdade de Direito tem suas raízes ainda no século XIX. Como uma das primeiras a serem implantadas no país, foi precedida apenas pelas Faculdades de Recife, São Paulo, Salvador, Rio de Janeiro e Ouro Preto. Em 120 anos de história, Bartira é a primeira mulher a ocupar a diretoria da unidade. Quando se candidatou, a docente não tinha concorrentes para o cargo. A chapa era única. Contudo, houve resistência. “Na época todos os meus colegas docentes concordavam que eu era o melhor nome para o cargo. Apesar disso, houve o movimento pelo voto nulo.”

Agora, na direção da unidade desde 2017, Bartira fala com propriedade sobre a desproporção ‘deles’ sobre as mulheres em posições de destaque. Segundo a docente, o Direito carrega um estigma histórico cultural muito forte de homens e brancos. “O Direito foi construído a partir de um olhar masculino, e apesar desse cenário ser outro nos dias de hoje, ainda temos a maioria dos doutrinadores, autores de livros e palestrantes da área como homens. No campo do Judiciário temos cada vez mais a participação da mulher. Por exemplo, na Justiça Trabalhista 14 Tribunais Regionais do Trabalho são presididas por mulheres, o que não se repete nos outros tribunais”, observa Bartira.

Sobre o preconceito por ser mulher e estar em um cargo de gestão, a docente é enfática: “eu passo por cima!” Resiliente, Bartira argumenta que, sobretudo no Direito, é comum o exercício do controle e autoridade ser caracterizado como inapropriado, no entanto a docente afirma não ter receio em desagradar opositores. “Eu tenho habilidade em lidar com pessoas. Nós temos a cultura de que a democracia significa cada um fazer o que quer, mas eu deixo bem claro que enquanto eu estiver na direção da unidade eu vou dirigir a unidade. Eu não tenho nenhum problema em dar uma ordem enquanto chefe. Faz parte do jogo”, ressalta.

Pioneirismo
“Eu tenho fama de brava”, destaca Maria Clorinda Soares Fioravanti, diretora da Escola de Veterinária e Zootecnia. A docente é a primeira mulher das ciências agrárias a assumir um cargo de direção de unidade. “Fui a primeira mulher a ser presidente da Associação Latino Americana de Buiatria, que é um segmento da medicina veterinária que trabalha com ruminantes, e então me perguntei por que eu não poderia ser a primeira mulher diretora da EVZ. O que me motivou foi isso, nunca ter havido antes uma mulher na direção da unidade”, conta.

Graduada em medicina veterinária pela UFG, Maria Clorinda conta que à época da sua formação o curso era predominantemente masculino, a proporção de mulheres era de sete para cada 40 homens. Hoje, a diretora conta que essa realidade mudou. Apesar disso, as áreas de atuação da profissão com animais de grande porte, ainda é dominada por ‘eles’. “Primeiro vem a ocupação do espaço, depois a conquista do poder. Quando entrei como docente na universidade éramos pouquíssimas mulheres, esse perfil foi mudando e hoje somos maioria. Quase 60 anos depois da criação da EVZ, somente agora conseguimos a direção da unidade”, protesta Maria Clorinda.

Personalidade forte. Sem distinguir se ela foi causa ou consequência das suas conquistas profissionais, a diretora conta que nunca se permitiu intimidar diante do assédio sofrido diversas vezes. O tom de voz alto, conversar olhando nos olhos e se posicionar sem nenhuma timidez foram as estratégias de Maria Clorinda para superar os desafios. “Todas as vezes que passei por uma situação constrangedora, eu coloquei limites e segui meu caminho como se nada tivesse acontecido. Sempre fui muito decidida! Eu entrei na faculdade dois anos antes de todo mundo, cursei um ano de física, mas aos 21 anos eu já estava formada. Independente se eu tivesse feito outras escolhas na minha vida, com certeza eu estaria aonde estou hoje: dentro de uma universidade dando aulas e fazendo pesquisa.”

Protagonismo
Um pouco diferente das demais, a Faculdade de Odontologia teve a sua primeira mulher diretora no ano de 1994, quase 50 anos depois da sua fundação em 1945. Atualmente, a gestão da unidade está nas mãos de Enilza Maria Mendonça de Paiva, a terceira docente do sexo feminino a assumir o cargo. Proativa e habilidosa, ela conta que recebeu da mãe – desde a infância – as instruções para sempre estudar, trabalhar e conquistar a própria independência. “Eu nunca encontrei barreiras durante a minha trajetória. Se eu fosse um homem não faria a menor diferença, eu faria o meu trabalho da mesma forma como faço hoje”, ponderou a professora.

Apesar disso, Enilza comenta que a maior dificuldade da mulher no mercado de trabalho atual é a conciliação da carreira com a família. Preocupação confirmada por meio de uma pesquisa realizada pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) em 2017, que revelou que as mulheres trabalham em média 7,5 horas a mais que os homens por semana, em função da dupla jornada. “Ser mãe te exige um pouco mais, é quando você sente a diferença de ser mulher”, completa.

Outro dado importante revelado pela diretora é que dois terços do quadro de professores do curso de odontologia são compostos por homens, porém a maioria dos discentes são mulheres. De acordo com ela, é crescente a quantidade de mulheres nos cargos de direção e coordenação dentro da universidade, e que nas ciência da área da saúde isso é ainda mais gradual. “Há pouco tempo nós tínhamos um grupo de whatsapp que se chamava Diretoras da Saúde, porque todas nós éramos mulheres”, brinca a docente.