Notícias

Autor: José Abrão

Publicado em 03/01/20 - Notícias

A arte e a vida caminham juntas

Ciça Fittipaldi foi professora da FAV por 25 anos e tem uma trajetória inspirada na arte e literatura

A arte e a vida caminham juntas
Fotos: José Abrão

Bastidores de uma vida artística premiada 

A trajetória com a professora Ciça Fittipaldi foi a que mais despertou a atenção dos nossos (as) leitores (as) no ano de 2019. A entrevista com a docente surgiu por acaso: da recomendação de um aluno que gostava muito de suas aulas na graduação e que foi estagiário da Assessoria de Comunicação do Adufg-Sindicato. Uma breve pesquisa revelou que a influência e história da educadora ia muito além da sala de aula, incluindo seus incontáveis prêmios literários. Sobre isto, o estudante que a recomendou foi categórico: “ela nunca falou sobre isso”. A humildade não está apenas em relação aos seus prêmios, mas em relação à sua brilhante trajetória artística e acadêmica. Sua entrevista rendeu três horas de conversa sobre a vida, arte e ser professora, sabedoria que foi pouca para uma página de jornal. A professora nos recebeu em sua residência que é, por si só, uma galeria, com notáveis esculturas e pinturas espalhadas por toda parte. São tantas obras de arte que falta casa: a maior parte do acervo fica guardado em um quarto e a professora reveza os itens em exibição, fazendo a curadoria da própria coleção.

*Este texto foi publicado na Edição 59 do Jornal do Professor em agosto de 2019.

Aos oito anos de idade, ainda em São Paulo, Ciça Fittipaldi estava em uma bienal de arte com suas melhores amigas, filhas do artista concretista Waldemar Cordeiro. Intrigada, ela observou uma obra dele sem entender. Eram recortes de jornal com fotos das atrizes Brigitte Bardot, Sophia Loren e Claudia Cardinale e na frente havia garrafinhas penduradas com quantidades diferentes de água. “Eu não consegui entender que aquilo fosse arte e perguntei pra ele ‘o que é arte?’ e ele falou assim pra mim ‘que pergunta boba, muda de pergunta! Pergunta: quando é arte? Como é arte?’, e balançou essas garrafinhas e quando olhei a Sophia Loren e as outras atrizes estavam rebolando (risos). Eu fiquei maravilhada! Se isso me toca verdadeiramente, é arte, sendo que às vezes você precisa de anos de academia e filosofia, para entender isso”. A lição foi aprendida e Ciça a levou para a vida, inclusive para a sala de aula. Professora da UFG por 25 anos, ela conciliou sua carreira acadêmica com uma bem-sucedida trajetória artística e literária que lhe rendeu diversos prêmios e reconhecimentos, incluindo quatro prêmios Jabuti.

Ela nasceu na capital paulista em uma família de editores e livreiros com uma vida intelectual, cultural e artística bastante ativa: “cresci em um ambiente favorável à leitura, a museus, fui uma pessoa com muitas oportunidades, que tenho que agradecer sempre”.

Porém sua primeira tentativa de carreira não foi nos livros. Era bailarina solista do Teatro Municipal de São Paulo, onde fazia parte do corpo de baile e dançava os balés e as óperas e queria seguir na dança, só que seus pais exigiam uma formação superior, e foi assim que ela desembarcou em 1973 na UnB para estudar Arquitetura. Após sofrer um acidente, teve que parar de dançar. Foi aí que descobriu o desenho e a gráfica da UnB: “ela imprimia quase tudo que depois virou a editora da UnB, muito parecido com o Ateliê Tipográfico da UFG. Quando eu não estava em aula eu estava na gráfica”.

Essa primeira experiência logo a levou para o campo profissional: “fiz todos os cursos de gravura, que acho que é uma formação muito importante para o ilustrador. No segundo ano de faculdade eu precisava de uma grana para me sustentar. Brasília é uma cidade muito cara. Eu consegui um trabalho como ilustradora do Jornal de Brasília, em 1973”. Acabou que não finalizou o curso de Arquitetura e sim o de Artes Plásticas.

Mudanças

Em 1980 se casou com um geólogo que tinha muitos negócios de mineração no Centro-Oeste e logo os dois se mudaram para Goiânia. Veio sem conhecer a cidade nem ninguém que morasse aqui, para um apartamento nos então novos Bloquinhos do Marista. “Foi muito complicado. Eu quase morri. Eu não sabia nem onde eu ia morar”, conta. Quando chegou, sofreu para se adaptar: “Goiânia acabava pela 85 no morro do Serrinha, onde tinha o jornal. Tudo mato. Setor Bueno era bairro de chácaras. A T-1 era de terra!”.

Começou a circular a pé pelas ruas e logo se apaixonou pelas personagens e situações surreais que encontrou pelo Centro.

Numa dessas andanças, foi até a Praça Cívica e por acaso entrou na Secretaria Municipal de Cultura que a época tinha como secretária Iara Moreira. Foi um encontro auspicioso em que se engajou em um grande projeto com a prefeitura: “a Iara me chamou para ajudá-la a cuidar da recuperação do Bosque dos Buritis que era abandonado, cheio de mato. Instalamos juntas o Museu de Arte de Goiânia, o Centro Livre de Artes do qual fui diretora três anos. Nós fizemos os lagos, nós descobrimos as nascentes”. Pouco depois também se tornou ilustradora do jornal O Popular.

Posterior a este período, voltou a São Paulo outra vez acompanhando o marido que conseguira uma boa posição e fez uma pós-graduação na USP. Mergulhou no trabalhou e ao longo dos dez anos seguintes se consolidou como autora e ilustradora de livros infantis, ganhando três prêmios Jabutis (o quarto viria em 2014). Além de ter vencido quatro prêmios, ela foi jurada da premiação três vezes. Sua primeira série de livros é sua obra mais conhecida: a coleção Morená com oito livros sobre diversos mitos de origem indígena de povos diferentes. O regresso à Goiânia veio à força. Por causa do plano Collor, as economias da família, que agora tinha dois filhos pequenos, ficaram escassas e eles retornaram para Goiânia por ser uma das capitais mais baratas do País: “ficaram duas opções, Curitiba e Goiânia, mas eu não queria passar frio nem a pau!”.

Recebeu um convite da diretoria da FAV para fazer uma oficina em um festival de arte quando retornou e foi então que o professor José César lhe avisou que haveria um concurso para a disciplina de arte contemporânea. “Lembro da Selma Parreira me dizer, Ciça, você está muito isolada, se você for ficar aqui em Goiás você tem que procurar um lugar em que você possa interagir, venha para a universidade, ela já era professora. Dentro da UFG eu fiz um programa muito forte de formação de ilustradores, tenho imenso orgulho deste trabalho, formei ilustradores com relevância internacional”, conta.

“No começo eu trabalhei muito arte contemporânea, junto com o Carlos Sena e com a Selma, criamos a Galeria da FAV. Como eu tinha filhos pequenos e o marido sempre viajando, eu tive que aguardar para fazer a especialização. Fiz parte da primeira turma do mestrado que a FAV abriu. Fiz o mestrado e minha família disse ‘tudo bem, o mestrado a gente aguenta, já o doutorado’ (risos)”, brinca, “Fiquei 25 anos na UFG e fiz o meu trabalho com muito afinco, sempre achei o papel da educação importante, então quanto me envolvi com educação, foi pra valer”.

Sobre seu legado, ela espera ter conseguido passar para os seus alunos como a arte e a vida estão ligadas: “a arte é experiência e está vinculada com nossa vida. São coisas juntas, que acontecem juntas, e tudo é experiência”.