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Autor: Ascom Adufg-Sindicato

Publicado em 16/07/2020 - Jornal do Professor

Professores desenvolvem modelo de previsão estratégica da pandemia

Docentes do ICB e do IPTSP criaram modelo que se tornou referência nacional devido ao seu grau de sofisticação

Conforme a crise gerada pela pandemia do coronavírus estende-se, também estende-se o negacionismo e a inação do Governo Federal, especialmen-te do nosso maior mandatário, presidente Jair Bolsonaro, em relação aos impactos da crise sobre toda a população. Desta forma, entidades sindicais como o Adufg-Sindicato, movimentos sociais e outros grupos civis organizados estão assumindo o protagonismo de ações na linha de frente do combate, estudo e monitoramento da Covid-19.

O mesmo vale principal-mente para os docentes que têm encabeçado pesquisas de ponta em critério emergencial para aplacar a crise. Um destes traba-lhos mais importantes consiste em poder prever com precisão como o contágio da Covid-19 irá se propagar.

O professor do Instituto de Ciências Biológicas (ICB), Thiago Rangel, faz parte do Comitê de Operações Estratégicas formado pelo governo do Estado de Goiás como resposta à pandemia para atuar junto ao Centro de Operações de Emergências (COE) da Secretaria de Estado de Saúde (SES). Atuam no COE diversas pessoas de áreas especializadas diferentes. O governo requisitou a participação de professores da UFG. Inicialmente ingressaram os professores João Bosco e Cristiana Toscano, ambos do Instituto de Patologia Tropical e Saúde Pública (IPTSP).

“Logo no início a profes-sora Cristiana viu a importância de se criar um grupo de modela-gem, para criar projeções. O go-vernador também pediu isso ao reitor”, conta Rangel, “ela saiu à procura de professores, pesquisadores dentro da UFG com este tipo de competência” e foi assim que ele e o professor José Alexandre Felizola ingressaram no projeto. Desde então têm trabalhado nesta equipe de modelagem ele, o professor José Ale-xandre e a professora Cristiana.

Trata-se de um programa de computador sem interface gráfica. Os pesquisadores colocam nele todas as regras do fun-cionamento da pandemia, como a população de Goiás, cada um dos municípios, a população do município, a distribuição etá-ria de cada município estimada pelo IBGE, e assim por diante.

“O primeiro caso de infectado foi lá em fevereiro. O que fazemos é usar o índice de isolamento social para determinar uma certa probabilidade de que um certo indivíduo infectado encontre um indivíduo suscetível”, explica Rangel, “quando índice de isolamento está baixo, como agora, estas transmissões acontecem de maneira mais rápida. Quando ele sobe, as transmissões acontecem de maneira mais lenta”.

Da mesma forma, uma vez infectado, o modelo gera as probabilidades de um indivíduo infectado em função da idade que ele tem de evoluir para um caso sintomático e precisar de hospitalização. Essas probabilidades utilizam a série histórica de hospitalizados em Goiânia, for-necidos pela (SES). Ele também considera a probabilidade de um indivíduo que está em leito clínico evoluir para um caso grave e precisar de um leito de UTI, assim como a probabilidade desta pessoa com um quadro grave em UTI ir a óbito.

“Somos capazes de capturar a dinâmica da doença não só do ponto de vista do indivíduo, mas a dinâmica temporal da doença no município e no Estado”, afirma Rangel. O professor garante, sem sombra de dúvida, que “o modelo, comprova a eficiência do isolamento social como medida de prevenção da evolução da pandemia. Em abril, quando o isola-mento social estava alto, foi como tirar o pé do acelerador. A pandemia ficou bem lenta em Goiás. Porém, a partir da segunda quinzena de abril, esse isolamento foi cada vez mais reduzido e a velocidade da pandemia aumentou muito”. A certeza é garantida pelos dados de entrada no modelo. Na medida em que o isolamento foi perdido, o modelo foi acelerando na mesma velocidade e conseguiu capturar plenamente toda a tendência dos números de óbitos registrados em Goiás até hoje. “Nós acertamos exatamente o dia em que chegaríamos a 100 óbitos. Nenhum dia a curva de óbitos esteve fora da nossa margem de erro”, con-ta. Isso indica de que se a coisa continuar como está com a per-da do isolamento social contínuo, “estamos caminhando em uma trajetória muito ruim”.

O pior cenário prevê em torno de 5500 óbitos em Goiás até 31 de julho se mantivermos como estamos. Até lá, mais de 34 mil pessoas no Estado precisarão ser hospitalizadas no total. Simultaneamente, são cerca de 500 leitos comuns na rede pública destinados à Covid-19 e 102 leitos de UTI. Com a curva dando saltos de crescimento, o colapso da infraestrutura é iminente.

“O que tenho para dizer aos leitores é que temos um modelo ultrassofisticado, certamente um dos mais sofisticados do Brasil, talvez do mundo, com uma capacidade de previsão da tendência quase perfeita. Ele funciona e podemos aprender com ele”, afirma Rangel. Ele destaca que o que já aprendemos é que o isolamento social funciona, é efetivo contra a doença, e que precisamos voltar urgente para um isolamento acima de 50%.

No aspecto científico, ele destaca o mérito da UFG e dos professores da rede pública de ensino superior no Estado que criaram um dos modelos mais sofisticados do mundo mesmo após um ano de cortes sumários na pesquisa, nas bolsas estaduais e federais, e na Educação como um todo. “É um privilégio um Estado no Brasil ter talentos com a capacidade de construir um modelo com esta complexidade”, disse.

É fundamental destacar que esta resposta rápida só foi possível graças a anos e anos de investimento, algo que o governo não vê, mas que cobra na hora do aperto, mesmo desidratando instituições como Capes, CNPq e Fapeg sistematicamente nos últimos anos como um desperdício.

Isto prova a importância do investimento contínuo em pesquisa e educação. “Eu tive bolsa da graduação até a pós-graduação e não seria o cien-tista que sou sem esse suporto. Ponto final”, afirma, “nós fazemos parte de grupos de pesquisa com pós-doutorandos, doutorandos, mestrandos, alunos de iniciação científica que formam uma roda que girar permanentemente”.

Portanto, “cortar ou reduzir bolsas quebra esse fomento para a formação de recursos humanos. É jogar 50 anos de construção da ciência no país na lata de lixo”, resume, “o que a sociedade está podendo colher com as nossas projeções é fruto de um investimento caro. É caro formar pessoas. É caro manter uma universidade. É caro fazer ciência”.

Cenário político

As ações realizadas pelas universidades e entidades sin-dicais ganham protagonismo frente à inação generalizada dos governos, especialmente do Governo Federal. Desde o começo da crise, o presidente Jair Bolsonaro fez uma série de declarações infelizes, desde chamar a pandemia de “gripezinha” a falar que a morte de mais de 40 mil brasileiros era “destino”. Além de não agir de forma alguma para impedir a propagação da doença, o governo atrapalha: o país segue sem ministro da saúde, dados chegaram a ser removidos do site do ministério. Além disso, o governo usa da crise como cortina de fumaça para dar continuidade aos seus ataques contra as universidades, o meio ambiente e contra grupos e movimentos sociais minoritários.

“Acredito que, desde o início, há tensão na coordenação federativa, causada, principalmente, pelo comportamento avesso de Bolsonaro em promover o isolamento social, medida considerada essencial para conter a propagação da pandemia da COVID-19”, avalia o cientista político e professor da Faculdade de Ciências Sociais (FCS), Robert Bonifácio. Antes da pandemia, o país não mostrava recuperação econômica, um comportamento incomum, de baixo crescimento após o fim de uma recessão. Ciente de que a pandemia agravaria ainda mais esse quadro, Bolsonaro “tensionou para ignorar o isolamento social, a fim de conter maiores prejuízos econômicos. Tal leitura é convergente e, desse modo, mais um capítulo, de seu modus operandi, que é agir como candidato político e não como presidente da república”.

Para o professor, desde 2019 o olhar de Bolsonaro mira 2022. Além disso, é cômodo para ele ignorar o isolamento social “porque cabe a governadores e prefeitos operacionalizar medidas de isolamento, caindo sobre os últimos as maiores responsabilidades por casos e mortes que venham a ocorrer”.

O que coloca tais gover-nantes sob mais pressões e eles vêm cedendo, alavancando o contágio da doença. No estado de Goiás, o governador inicialmente tomou medidas firmes e condizentes com estudos técnicos para conter a propagação da pandemia, mas depois cedeu. “Como Caiado prometia um novo decreto semanas depois e insinuou, na imprensa, que voltaria atrás em alguns pontos da flexibilização, o fato de ele não ter editado novo decreto demonstra fraqueza política e indica para os atores políticos que é benéfico pressionar por cada vez mais flexibilização”, avalia. Por isso, o professor acredita que o ambiente político não se mostra propício ao retorno de medidas mais duras de isolamento social em Goiás.

Para o cidadão, é negativo esse cenário de não cooperação federativa. “Primeiramente, isso tem impacto negativo no com-portamento. Se o presidente diz para levar vida normal e o governador diz para ficar em casa, de quem devem ser as orientações a serem seguidas? No mais, no dia a dia da administração pública, há barreiras e lentidão, posto que há entendimentos dissonantes entre os entes federados sobre a forma de agir”, avalia. Sem contar as duas mudanças de minis-tro da Saúde e a atual condição interina do chefe do ministério, que também traz prejuízos de gestão. “O ideal seria haver um entendimento único e imperar a cooperação e não a competição, mas isso não acontecerá. O que o cidadão comum deve fazer é ficar em casa, caso isso lhe seja possível”.